O profissional do futuro na era da IA: uma aula aberta na empresa Senior Sistemas
Na tarde de 2 de outubro de 2026, a Senior Sistemas promoveu um encontro muito enriquecedor que, no âmbito do componente curricular "Direito, Tecnologia e Inovação" do Curso de Direito da FURB, foi organizado como uma aula aberta em formato de podcast. Voltada especialmente às duas turmas do período noturno que leciono, compostas por estudantes da última fase, a iniciativa representou uma valiosa aproximação entre o ambiente corporativo e a universidade.
Igor Trapnauskas, Engenheiro de Inteligência Artificial Aplicada da empresa e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Contabilidade e Administração da FURB (PPGCCA), a quem tenho o privilégio de orientar no mestrado, elaborou a pauta e conduziu o diálogo a partir do tema “O profissional do futuro na era da IA”, no contexto de seu estágio docência no componente curricular.
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| Anderson, Aline, Alejandro, Igor e Otávio (Foto: Paulo, 2026) |
A convite do Igor, tive a alegria de compartilhar a mesa de debates com Aline Rassweiller de Souza, gerente da Universidade Corporativa da Senior, e Anderson de Souza Torres, coordenador de Pesquisa Aplicada e Inovação da empresa. O encontro contou ainda, nos bastidores, com a presença de Otávio Henrique Baumgarten Arrabal, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Direito da FURB (PPGD), e de Paulo Sérgio da Silva Junior, responsável pela gestão do excelente estúdio e pelo suporte técnico da gravação. Agradeço ao Igor, à Aline, ao Anderson e ao Paulo pela tarde tão agradável e de imenso aprendizado, e estendo meu agradecimento à Senior Sistemas pela receptividade e abertura institucional.
Abaixo, o podcast pode ser assistido na íntegra. O texto que segue retoma os temas nele abordados, acrescentando alguns complementos e links para fontes relacionadas.
IA e o debate sobre a Obsolescência Profissional
A primeira pergunta de Igor foi sobre o impacto da inteligência artificial na vida das pessoas e nas profissões. A inteligência artificial é reconhecida como uma Tecnologia de Propósito Geral (General Purpose Technologies - GPTs), explicou Anderson, daquelas capazes de transformar a sociedade inteira porque servem a múltiplos usos e alteram a própria infraestrutura das atividades. Ele lembrou o caso dos motores elétricos. As fábricas da era do vapor organizavam suas máquinas em função de uma fonte central de energia, cuja força era transmitida por eixos e correias. A eletrificação, especialmente com a adoção de motores individuais, permitiu reorganizar o layout segundo o fluxo da produção e criou condições para novas formas de organização produtiva, entre elas a linha de montagem. O motor a combustão trouxe o automóvel e, com ele, entrou em declínio todo um ecossistema econômico e profissional associado aos cavalos e às carroças, envolvendo cocheiros, tratadores, veterinários, ferreiros e outros ofícios. Esse movimento corresponde à destruição criativa de Schumpeter, pela qual algumas profissões surgem enquanto outras desaparecem. A diferença, desta vez, está no fato de que a inteligência artificial alcança diretamente o trabalho cognitivo. Atividades que envolvem análise, processamento de informações, linguagem, tomada de decisões e produção intelectual. Quem trabalhava em escritório sentia-se em posição segura diante da automação, por acreditar que ela atingiria sobretudo o trabalho manual e repetitivo. Hoje, porém, percebe que essa proteção não é tão sólida quanto parecia.
Anderson também distinguiu tarefas de profissões. Quando a tarefa automatizada é o principal valor que a profissão entrega, a profissão tende a cair, como ocorreu com as telefonistas, cuja função era conectar linhas. Quando a profissão reúne tarefas automatizadas e outras que não são, ela se remodela. O desenhista já não usa o lápis, mas continua desenhista. Destacou também o ferreiro que, ao ver as primeiras rodas de um Ford T, poderia ter concluído que quem conserta roda de carroça também conserta rodas de carro. Esse se adaptou.
Aline observou que o ser humano se adapta às transformações tecnológicas, encontra novas formas de gerar valor e aprende a explorar as oportunidades que surgem com as tecnologias de propósito geral, incorporando-as às suas atividades e criando novas possibilidades de trabalho e atuação. De fato, nós nos adaptamos. A história comprova isso. Complementei que a filosofia nos descreve como um horizonte aberto, definindo a humanidade mais pelo que lhe falta do que por aquilo que ela tem. É essa falta que nos move.
Contudo, compartilhei uma inquietação sobre nossa capacidade de adaptação diante do ritmo contemporâneo da vida. As gerações anteriores passaram de uma atividade a outra em um compasso diferente daquele que a vida nos impõe hoje. Há indicadores nos campos da psicologia e da psiquiatria que apontam para a ocorrência de estafa psíquica em pessoas submetidas à necessidade de mudar e se readaptar continuamente.
IA e o Ensino-Aprendizagem
Igor perguntou sobre o ensino a um toque de distância. Todo estudante tem a resposta no celular e, em breve, poderá tê-la também nos óculos, capazes de fotografar uma questão e devolver imediatamente uma solução. Como fazer uma aula de quarenta minutos nesse cenário, na universidade e na educação corporativa?
Respondi que a tecnologia produz um paradoxo. Supostamente, ela desumaniza, mas também nos provoca a repensar nossa condição humana e nossas práticas. O que é ensinar? O que é aprender? Quem ouve alguém falar, de fato apreende alguma coisa? Essas perguntas antecedem qualquer outra relacionada ao uso de artefatos tecnológicos. Já houve quem reivindicasse o projetor multimídia como uma conquista e, depois que cada sala ganhou um, quem passasse a acusá-lo de empobrecer a aula.
Considero que a tecnologia sempre foi humanística, por ser produto da ação humana no mundo. O poder pode ser compreendido como possibilidade de agir, conceito que, no Direito, encontra na liberdade uma de suas expressões fundamentais. As tecnologias ampliam as possibilidades de ação e participam das relações entre as pessoas, interferindo nas condições em que essas ações se realizam.
Quando, porém, o poder incide sobre o poder de agir do outro, ou, de modo mais amplo, sobre as condições a partir das quais a vida comunitária se torna possível, ele precisa encontrar limites. Em uma sociedade fundada na liberdade, o exercício do poder sobre a liberdade de outra pessoa somente se justifica na medida necessária à preservação das próprias condições de convivência e de realização pessoal.
É justamente nesse contexto que as tecnologias podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida, ao mesmo tempo em que podem produzir ou potencializar problemas de caráter provisório ou estrutural.
As máquinas não estão contra nós nem a favor de nós, mas isso não significa que sejam “neutras”. Os artefatos participam da vida humana. Em maior ou menor grau, produzem efeitos sobre atos e decisões. A filosofia do design e a filosofia da tecnologia oferecem diferentes caminhos para compreender essa relação e mostram que, de certo modo, os objetos “conversam” conosco desde sempre, embora não o façam da mesma maneira que os seres humanos conversam entre si, por meio de sinais sonoros e de seus correspondentes visuais, que chamamos de “idioma”.
Os artefatos que acreditamos serem “inanimados” conversam conosco a partir de suas “formas”. Não raro, encarnam o verbo no imperativo, ainda que o façam em silêncio. Na teoria da análise do discurso, aprendemos que o silêncio também significa. Desde sempre, os artefatos “informam” os seres humanos, participando e, por vezes, condicionando as possibilidades da ação humana no mundo.
Esse modo de perceber a relação entre pessoas e coisas é especialmente rico para pensar a inteligência artificial, que, acredito, não deve ser reduzida à condição de pessoa nem à de simples ferramenta.
Muito diferente da ideia de imaterialidade que moldou o imaginário popular sobre as Tecnologias Digitais, existe uma infraestrutura material irremediavelmente ligada ao campo simbólico da linguagem e dos códigos computacionais. Ela é composta por processadores, circuitos e energia, codificados e informados para que a matéria se comporte de determinado modo e sob determinadas condições. Não há dimensão simbólica que faça sentido desprovida de materialidade. Por isso, precisamos (re)avaliar criticamente a tendência de imaginar a inteligência artificial basicamente a partir de atributos humanos, como pensamento, consciência e moralidade, desconsiderando as condições materiais, técnicas e simbólicas que constituem sua existência.
Aline completou que o volume de informação disponível hoje é imenso e que isso traz o risco de nos perdermos. Ter clareza sobre o que se busca e sobre como fazê-lo é o que define se a ferramenta será bem utilizada. Ela contou o encanto de conversar com um livro e fazer uma análise crítica dele, defendendo que usemos a IA para ampliar nossas ideias.
Anderson destacou que não adianta usar a IA apenas para resolver mais rápido. O valor está em resolver aquilo que antes não conseguíamos resolver. Descreveu, então, dois alunos: um que joga a atividade no modelo de linguagem (a IA generativa) e se rende à primeira resposta; outro que utiliza o modelo ao máximo para entregar algo melhor do que conseguiria fazer sozinho. Lembrou que a Senior orienta sua atuação pelo propósito de potencializar pessoas e afirmou que ele próprio percebe mais qualidade e profundidade naquilo que faz hoje.
Sobre o uso do celular em sala de aula, ponderei que o ambiente e as relações comunicativas no ensino superior precisam oferecer condições de lidar com maturidade com os recursos disponíveis, o que inclui aprender a desacelerar. O celular não é um problema em si. O cotidiano nos empurra para a pressa, e a pressa pode nos levar a busca de soluções instantâneas, como a obtenção de textos elaborados por plataformas de inteligência artificial generativa.
O fenômeno da busca por meios que proporcionem resultados rápidos, contudo, não é uma novidade. Já tínhamos o copiar e colar, o plágio mosaico e o trabalho encomendado. Em muitos cenários relativos ao contexto do mercado e da indústria, a eficiência, entendida como a capacidade de produzir ou vender em menor tempo, com menor emprego de recursos e energia, é desejável. Nesse contexto, o caminho mais fácil pode representar uma vantagem competitiva. O ensino-aprendizagem, contudo, exige outro tempo. Não existe aprendizado instantâneo.
Anderson observou que a avaliação terá de mudar. Se as respostas chegam quase sempre corretas, o foco passa para o processo: como o aluno formula perguntas, como amadurece uma ideia. Complementarmente apontei que o Trabalho de Conclusão de Curso foi um passo nessa direção, ao aproximar orientador e orientando em uma trajetória formativa cujo ritmo e o diálogo entre estudante e professor é diferente. Contudo, no Direito, embora existem iniciativas e projetos diferenciados de metodologias de ensino-aprendizagem, a aula expositiva ainda predomina, o que representa um problema. Superar a lógica do certo e errado, como mencionou André, é um aspecto importante para considerar o que de fato importa formação profissional humanística.
O que fazer de diferente
Igor perguntou o que cada um faria de diferente se começasse a estudar hoje. Aline falou do pensamento crítico, da leitura e da interpretação, e lembrou que essas habilidades dependem de situações reais de exercício. Anderson apontou a capacidade de julgamento: avaliar se uma entrega está boa, se a resposta da IA está boa, e não simplesmente colocar outro modelo por cima para julgar. Acrescentei que estudos recentes indicam a tendência de presumir que o produto da máquina está razoavelmente bom, e então a o processo de revisão final torna-se precário e limitado, frequentemente um olhar de confirmação e retoque desprovido de criticidade mais apurada.
O pensamento crítico genuíno é simultâneo à construção do entendimento, de modo que deve atravessar todo o processo em permanente abertura dialética. Precisamos reformular nosso modo de pensar a crítica, desconstruindo a ideia de que ela se resume à oposição. Criticar é duvidar por curiosidade, e não por intenção defensiva; é colocar algo em questão com honestidade e respeito, criando condições para a transformação e admitindo também que o próprio exercício da crítica pode, ao final, conduzir à confirmação daquilo que se examinou.
Aline complementou essa perspectiva com uma consideração que sintetiza bem a relação entre tecnologia, conhecimento e experiência: a tecnologia proporcionou a inteligência artificial, não sabedoria artificial. Ela explicou que a sabedoria vem da vivência e da prática, e é justamente essa experiência que amplia o escopo para além daquilo que o prompt alcança.
Nesse contexto, frisei a importância de reconhecer que toda comunicação implica abertura e, consequentemente, certa fragilidade, porque quem fala se revela ao outro e, ao expor-se, encontra-se inevitavelmente sujeito às condições humanas e materiais do ambiente comunicativo. Negar essa condição inviabiliza o diálogo e qualquer possibilidade de transformação qualitativa. Assim, aprender não é simplesmente “apreender”, tomar algo para si. É conviver, dialogar, em pensamento e em ação. Isso implica abrir mão de certezas e da obsessão por julgar a tudo e a todos, afirmando categoricamente o que é certo ou errado. É preciso aceitar a variabilidade dos conceitos e valorizar a possibilidade de que aquilo que pensamos seja transformado no encontro com o outro.
Lembrei de um jantar de confraternização entre docentes e estudantes, no qual um professor de grande saber ouviu com atenção um estudante que se expressava de modo afirmativo. Aquela atitude me marcou. Mesmo diante de seu vasto repertório, aquele professor demonstrou respeito e, sobretudo, disposição para o diálogo, para revisitar e, quem sabe, reformular aquilo que já conhecia.
Aline deu nome àquela atitude: humildade intelectual, a capacidade de se desprender do que se acha que se sabe e reaprender. Anderson e Aline lembraram que os desafios humanos que envolvem o ensino-aprendizagem na universidade não são diferentes nas empresas.
O profissional do Futuro
Para fechar, Igor pediu a visão de cada um sobre o profissional do futuro.
Anderson destacou a relevância de construir repertório e profundidade profissional: quem atua com desenvolvimento de software precisa dominar a área para se posicionar com propriedade e ter representatividade em uma mesa de discussão, em vez de depender passivamente das entregas de um modelo de inteligência artificial.
Aline destacou o propósito no desenvolvimento profissional, enfatizando que a tecnologia se tornará uma commodity. Segundo ela, quem se conecta genuinamente com o que faz entra em estado de flow (fluxo) e aprende na velocidade exigida pelas transformações. Aline sugeriu ainda evoluir o conceito de protagonismo para o de "empreendedor da própria carreira".
Em complemento ao que o Anderson e a Aline abordaram, lembrei que o trabalho como sentido da vida exige um diálogo constante com a família, os amigos e o ócio, entendido aqui não como inatividade, mas como o reconhecimento do equilíbrio necessário entre os diferentes espaços da nossa existência. Profissão é palavra que em sua origem é irmã de professor e professar, que significa declarar publicamente uma convicção que se constitui junto com o ambiente do qual participamos.
Para pensar o profissional do futuro, é preciso lembrar uma antiga reflexão filosófica sobre o tempo: o passado permanece como memória, o futuro se apresenta como projeção e ambos habitam o momento presente. O profissional do futuro, portanto, já está aqui, entre nós. Cabe a todos promover o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial em condições compatíveis com aquilo que efetivamente desejamos em termos de qualidade de vida e dignidade existencial.
Encerro este post reiterando meus agradecimentos ao Igor, pela pauta cuidadosa, pela condução dos diálogos e pela confiança em fazer deste encontro uma extensão da sala de aula. À Aline e ao Anderson, pela generosidade em compartilhar experiências e saberes, com franqueza e abertura ao diálogo. Ao Paulo Sérgio, pelo cuidado com o estúdio e com a gravação, e ao Otávio, pela presença e pelo apoio nos bastidores.
Agradeço também à Senior Sistemas, que abriu suas portas à universidade e mostrou que a aproximação entre o ambiente corporativo e a academia pode proporcionar reflexão, aprendizado e aperfeiçoamento institucional.
Por fim, agradeço às e aos estudantes das duas turmas do período noturno, para quem esta aula aberta foi pensada e que deram especial sentido ao encontro.
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Referência: ARRABAL, A. K. O profissional do futuro na era da IA: uma aula aberta na empresa Senior Sistemas. Blog Prof. Arrabal, Blumenau, 2 out. 2026. Disponível em: https://profarrabal.blogspot.com/2026/10/o-profissional-do-futuro-na-era-da-ia.html. Acesso em:
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Nota: A produção deste texto contou com o suporte de ferramentas de inteligência artificial generativa (IAG). O Transcritor Instantâneo do Google foi utilizado para a transcrição das falas, que constituem fonte parcial das informações apresentadas no texto. O Claude e o ChatGPT foram empregados como apoio a estruturação do texto e utilizados parcialmente na revisão ortográfica e gramatical.

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