Materialidade Digital

Um "sinal" é algo que, ao ser percebido, remete a outra coisa distinta de si mesmo, produzindo ou possibilitando uma significação. Todo sinal envolve forma e matéria. Uma palavra escrita apresenta determinada configuração gráfica e depende de alguma materialidade, tinta sobre papel, grafite, pixels em uma tela, para tornar-se perceptível. A forma, em geral, não se confunde com a matéria que a manifesta. A palavra “casa” pode ser impressa, manuscrita ou exibida digitalmente sem deixar de ser reconhecida como a mesma palavra.

Embora o significado não esteja totalmente aprisionado à forma do sinal nem à materialidade que lhe proporciona condições de manifestação e percepção, esses elementos não constituem meros suportes externos do sentido. A palavra “banco”, por exemplo, conserva sua configuração linguística quando empregada em “fui ao banco” ou “sentei no banco”, mas seu significado depende do contexto em que a forma é mobilizada. Do mesmo modo, a palavra “liberdade” pode adquirir diferentes sentidos conforme seja encontrada em um livro, em uma pichação de muro, em uma faixa de manifestação ou gravada em um monumento.


Existe uma relação de interdependência constitutiva entre forma e matéria, pois as propriedades da matéria condicionam as possibilidades de manifestação da forma, ao mesmo tempo que a forma organiza e qualifica a maneira pela qual a materialidade pode ser percebida. Um desenho não pode ser simplesmente reproduzido de maneira idêntica no papel, na pedra e na água: o papel permite traços e superfícies relativamente estáveis, a pedra impõe processos de escavação ou modelagem, enquanto a água, por sua fluidez, dificulta a permanência de uma configuração gráfica. As "materialidades", nesse sentido, não são "formalmente" equivalentes.

Tanto a forma quanto a materialidade podem participar da própria produção do sentido, A mesma frase, apresentada em um documento acadêmico, em uma faixa de protesto ou em uma inscrição monumental, produzem efeitos de sentido diferentes, ainda que sua composição verbal permaneça inalterada. Do mesmo modo, uma mensagem escrita à mão pode adquirir conotações de pessoalidade e proximidade que dificilmente seriam produzidas por mensagens apresentadas em diagramação e fonte tipográfica padronizada. 


A alteração da materialidade ou da configuração formal de um sinal pode modificar, ampliar ou restringir suas possibilidades de significação. O sentido não se reduz à forma nem à matéria, mas tampouco existe (em significação) inteiramente à margem delas: constitui-se também na relação entre aquilo que o sinal configura, a matéria por meio da qual se manifesta e as condições em que é percebido e interpretado. 

A imagem de um casal pode ser impressa em papel, publicada digitalmente em uma rede social, ou representada em um monumento memorial sem deixar de remeter às pessoas nela representadas; entretanto, cada uma dessas materialidades e configurações acrescenta sentidos relacionados à intimidade, à circulação ou à permanência. A materialidade e a forma não são, portanto, indiferentes àquilo que um sinal comunica.


Portanto, existir no ciberespaço é comunicar-se por meio da forma e da materialidade que constituem a computação digital em rede. A convivência humana sempre envolveu mediações. A história foi, e é, contada por inúmeros sinais, em formas, padrões e suportes diversos, a partir dos quais compartilhamos crenças, valores, identidades e tudo mais que integra aquilo que chamamos de Cultura. A comunicação humana nunca ocorreu fora de mediações. O que se transforma são suas formas, seus meios e as condições materiais que as tornam possíveis, transformando a própria cultura em maior ou menor intensidade.

Assim como a tinta e a tela de uma obra de arte participam, de algum modo, das significações compartilhadas, também a configuração, a energia elétrica e a forma de uma máquina incorporam essas qualidades aos sinais que se tornam mensagens. Uma fotografia impressa em papel não produz necessariamente os mesmos efeitos de sentido quando convertida em imagem digital, inserida em uma rede social, submetida a filtros, redimensionada ou apresentada em uma interface interativa. Embora permaneça possível reconhecer aquilo que a imagem representa, sua nova condição material e formal introduz outras possibilidades de percepção, circulação, apropriação e interpretação.

Com a computação digital, a imagem, o texto, o som ou o vídeo que percebemos são necessariamente articulados de forma integrada aos sentidos que envolvem as estruturas físicas e os processos computacionais: dispositivos, circuitos, memória, armazenamento, energia, protocolos, códigos, algoritmos e redes. O que aparece como supostamente "imaterial" depende, portanto, de uma complexa articulação material que torna possível sua configuração, processamento, transmissão e percepção. 

Essa condição permite compreender que a chamada “imaterialidade” do digital é, em grande medida, uma experiência produzida pela ocultação de sua materialidade. Quando uma mensagem é enviada por um aplicativo de comunicação, percebemos palavras, imagens e sons, mas não percebemos diretamente os processos pelos quais esses sinais são codificados, armazenados, transmitidos, processados e novamente apresentados aos sentidos. A invisibilidade dessas operações não significa ausência de materialidade, nem seu afastamento da experiência significativa do sujeito. Isso porque as condições materiais e técnicas que tornam possível a comunicação podem produzir efeitos sobre essa experiência. A rapidez com que uma mensagem é transmitida por diferentes meios e processos físicos, como o eletromagnético, embora raramente seja percebida como um fenômeno material, integra as condições em que a mensagem é experimentada e pode produzir efeitos sobre seu sentido.

Assim como ocorre com os aspectos materiais, o meio digital não se distancia das significações em sua forma. Um mesmo conteúdo pode ser apresentado como texto corrido, hiperlink, postagem, comentário, notificação, formulário, vídeo, gráfico interativo ou resultado produzido por um sistema algorítmico. Em cada configuração, modificam-se as possibilidades de acesso, atenção, interação, resposta e circulação. Um texto acadêmico, quando convertido em uma página hipertextual, deixa de estar limitado à sequência linear característica da página impressa. 

No “ambiente digital”, forma e materialidade assumem uma condição dinâmica. Submetida às inúmeras formas operativas possibilitadas pela materialidade digital, a mensagem, ainda que vinculada àquilo que inicialmente representava, pode mudar em significação.

Por isso, compreender a comunicação digital exige ultrapassar a ideia de que a tecnologia simplesmente transporta mensagens previamente constituídas. O meio não é indiferente ao que comunica, pois suas propriedades (materiais e formais) condicionam o que pode ser produzido, percebido, processado e compartilhado, ao mesmo tempo que podem acrescentar novas dimensões de sentido ao que é comunicado. A rede, a interface, o código e os dispositivos não estão simplesmente “por trás” da mensagem. A cultura que se constitui por meio e no “ambiente digital” é inseparável das materialidades e das formas computacionais que mediam a experiência humana.

Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

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Declaração de autoria e uso de Inteligência Artificial: A elaboração deste texto contou com o uso de Inteligência Artificial Generativa (ChatGPT) como instrumento de interlocução e apoio à escrita. A IA foi empregada para discutir conceitos, questionar formulações, propor exemplos, identificar redundâncias e ambiguidades e sugerir alternativas de estruturação e redação. O desenvolvimento do argumento, a seleção e reelaboração das proposições, as decisões conceituais e a redação final resultam da atividade autoral do pesquisador. Todo o conteúdo foi submetido à análise, revisão e validação do autor, que assume integral responsabilidade pela versão publicada. Também foi utilizada Inteligência Artificial Generativa (Gemini) para a produção de três ilustrações elaboradas a partir de passagens e ideias desenvolvidas no texto. As ilustrações foram posteriormente adaptadas e modificadas mediante diversas solicitações do autor para alteração, exclusão e acréscimo de elementos textuais e gráficos.

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Referência (ABNT):

ARRABAL, Alejandro Knaesel. Materialidade digital. Blog Prof. Arrabal, 7 set. 2026. Disponível em: https://profarrabal.blogspot.com/2026/09/materialidade-digital.html. Acesso em: .

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