Trajetórias de Elaboração de Dissertações de Mestrado: Relatos, Estratégias e Aprendizagens (Aula Seminários de Dissertação - PPGCCA-FURB)
Na tarde de segunda-feira, 21 de setembro de 2026, no contexto do Programa de Pós-Graduação em Contabilidade e Administração da FURB (PPGCCA), o componente curricular “Seminários de Dissertação” promoveu um encontro dos integrantes da turma com colegas do programa, alguns em fase posterior à qualificação e outros já com suas dissertações defendidas, para compartilhar experiências sobre o processo de elaboração da dissertação. Contribuíram com relatos pessoais Beatriz Vieira Van Dall, Charles Machado, Cinara Beatriz Tizziani Buzzi, Claudio Giovani Peixer e Gabriel Sudati de Moura.
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| Foto: Letícia Henz Hoffmann (2026) |
O propósito do encontro foi promover uma troca aberta de vivências entre colegas que já percorreram etapas do mestrado e aqueles que estão iniciando essa trajetória. Os relatos abordaram desafios metodológicos, escolhas de tema, rotinas de escrita, relação com a orientação e aspectos emocionais do processo. O texto a seguir reúne as orientações, sugestões e advertências apresentadas, organizadas por tema, com o propósito de servir como material de apoio para mestrandos em fase de desenvolvimento de suas dissertações.
A dissertação como parte da vida, não como mais um item de agenda
Um dos pontos discutidos logo no início do encontro trata da posição que a dissertação deve ocupar na rotina do mestrando. A recomendação é que ela não seja tratada como mais um item isolado em uma lista de prioridades, mas como algo que atravessa transversalmente as demais atividades da vida pessoal e profissional. A manutenção de uma agenda de trabalho é necessária, mas a vida impõe interrupções, imprevistos e períodos de menor dedicação, e isso não deve ser interpretado como fracasso do processo.
A prorrogação de prazo eventualmente pode ocorrer, mas não deve ser vista como solução automática. A quantidade elevada de pedidos de prorrogação não é bem avaliada pela CAPES, ainda que exista compreensão institucional de que fatores pessoais e profissionais podem justificar o adiamento da entrega. Estudantes bolsistas precisam observar que o cronograma de bolsa impõe prazos próprios, que não podem ser ignorados.
A origem do tema e a maturidade da pesquisa
Os relatos evidenciaram que o tema de pesquisa pode surgir de caminhos bastante distintos. Em alguns casos, decorre de uma experiência profissional anterior que desperta curiosidade intelectual, como a vivência direta com determinada tecnologia ou mercado. Em outros, resulta do contato prolongado com uma área de atuação profissional que o pesquisador deseja compreender de forma mais aprofundada. Também é comum que o tema amadureça ao longo do próprio mestrado, a partir de conversas com colegas, disciplinas cursadas e aproximação com o orientador.
Um ponto de atenção destacado é a armadilha de buscar uma lacuna teórica inédita a qualquer custo. Essa busca pode se tornar uma perseguição improdutiva, na medida em que grande parte dos temas já foi de alguma forma explorada na literatura. Um caminho legítimo e produtivo consiste em aplicar um modelo teórico já consolidado em um contexto ou setor em que ele ainda não havia sido utilizado. Essa estratégia viabiliza a formulação do problema de pesquisa sem reduzir sua relevância acadêmica, desde que a ausência de aplicações anteriores seja de fato verificada na literatura.
Também foi destacada a importância de buscar referências recentes fora do eixo tradicional europeu e norte-americano. A produção acadêmica de países como China e Coreia do Sul tem crescido de forma expressiva nos últimos anos e nem sempre aparece nas bases de busca mais utilizadas pelos estudantes, o que reforça a necessidade de ampliar as fontes consultadas quando a bibliografia local ou tradicional parecer insuficiente.
Leitura, fichamento e organização da fundamentação teórica
A prática de fichamento de artigos, comum nas primeiras disciplinas do programa, foi descrita como útil sobretudo quando compreendida como processo de aprendizagem, e não apenas como cumprimento de uma exigência formal.
Outro cuidado apontado é a necessidade de revisar a atualidade das referências à medida que a pesquisa avança. Dados e relatórios que pareciam recentes no início do mestrado podem se tornar defasados ao longo do tempo de elaboração, especialmente em áreas de rápida transformação. A recomendação prática é revisar periodicamente se há publicações mais novas sobre o tema antes da entrega final, evitando apoiar conclusões em informações já superadas.
A leitura de artigos em língua estrangeira, especialmente em inglês, foi apontada como desafio relevante para estudantes menos familiarizados com o idioma. O uso de ferramentas de tradução como apoio complementar à leitura foi indicado como prática legítima, desde que não substitua o esforço de compreensão do conteúdo.
Levantamento de dados: fontes primárias e secundárias
A escolha entre dados primários e secundários deve considerar a disponibilidade de bases já estruturadas sobre o tema. Quando existem bases secundárias consolidadas, como levantamentos de órgãos públicos ou entidades setoriais, o trabalho de coleta se torna mais ágil, mas é necessário avaliar com cuidado se os recortes e variáveis dessas bases correspondem de fato ao problema de pesquisa formulado. Uma base pronta nem sempre contém exatamente o recorte necessário, e essa avaliação crítica evita que o pesquisador construa conclusões a partir de dados que não respondem adequadamente à pergunta de pesquisa.
A coleta de dados primários foi descrita, em praticamente todos os relatos, como uma das etapas mais desafiadoras do processo. Públicos-alvo mais específicos, como profissionais de determinada categoria ou faixa etária, tendem a apresentar taxas de resposta baixas em relação ao volume de contatos realizados. Estratégias que favoreceram a obtenção de respostas incluíram a abordagem direta e pessoal, em vez do simples envio de formulários em massa, o uso combinado de diferentes canais de contato, como e-mail, WhatsApp, Instagram e LinkedIn, e a atenção ao horário de envio, já que certos públicos respondem com mais frequência em períodos específicos do dia. Também se mostrou eficaz buscar a colaboração de gestores ou coordenadores dentro de organizações, que ao encaminhar a pesquisa para suas equipes ampliam consideravelmente o alcance da coleta.
Um cuidado técnico relevante refere-se ao volume de disparos de e-mail ou mensagens em curto período, que pode levar provedores a identificar a conta como spam e bloquear o envio. Recomenda-se planejar o ritmo de disparo para evitar essa limitação, sobretudo em períodos críticos de coleta.
Quando a amostra obtida é pequena ou não probabilística, os resultados não podem ser generalizados para toda a população estudada, mas continuam válidos como observações referentes àquele grupo específico. Esse ponto deve ser expresso com transparência na redação da dissertação, como limitação do estudo, e não como falha a ser ocultada.
Pré-teste do instrumento de pesquisa
A aplicação de um pré-teste do questionário ou instrumento de coleta, preferencialmente de forma presencial e acompanhando o respondente durante o preenchimento, foi indicada como etapa capaz de revelar problemas de clareza, redundância ou ambiguidade nos itens antes da aplicação em larga escala. Ajustes de redação, exclusão ou inclusão de perguntas a partir dessa etapa são esperados e fazem parte do amadurecimento do instrumento.
A etapa de qualificação
Um consenso entre os relatos é que a qualificação não exige um projeto finalizado. Trata-se de uma etapa ainda de descoberta, em que o pesquisador está construindo clareza sobre o próprio objeto de estudo. Chegar à qualificação com plena segurança sobre todas as escolhas metodológicas pode até indicar que o momento da qualificação já foi ultrapassado em termos de maturidade do projeto.
As contribuições da banca de qualificação devem ser recebidas com abertura, mas também com discernimento. Nem toda sugestão recebida precisa ser incorporada, já que os avaliadores nem sempre têm domínio completo do modelo teórico específico adotado pelo pesquisador. Cabe ao mestrando, em diálogo com o orientador, avaliar a pertinência de cada apontamento. Ainda assim, é comum sair da qualificação com a sensação de desconstrução, na medida em que definições, categorias e escolhas metodológicas são questionadas e revisadas. Essa sensação faz parte do processo e tende a contribuir para o refinamento do trabalho.
Um recurso prático relatado foi incluir, após o slide de agradecimentos, uma lâmina de síntese com os principais dados, o desenho de pesquisa e os resultados centrais, mantida em exibição durante a rodada de perguntas da banca. Esse recurso evita que o apresentador precise retroceder repetidamente entre os slides para responder às questões e pode ser complementado por uma versão impressa entregue aos avaliadores. Quanto ao tempo de apresentação, recomenda-se treinar previamente a duração da fala, já que a percepção de tempo tende a se alterar sob a tensão do momento.
A discussão dos resultados
É comum que boa parte do tempo e da energia seja destinada à produção de tabelas e à validação estatística do modelo, restando pouco espaço para a interpretação do que os resultados efetivamente significam para o problema de pesquisa proposto. A recomendação é reservar tempo e atenção proporcionalmente maiores para essa etapa de discussão, já que é nela que se concentra a contribuição do trabalho.
Hipóteses não confirmadas ou resultados parciais não devem ser tratados como falhas a serem escondidas. Eles constituem achados legítimos da pesquisa e devem ser relatados com transparência, incluindo as limitações enfrentadas, pois orientam estudos futuros e permitem que outros pesquisadores compreendam com clareza o alcance e os limites do trabalho realizado.
Estrutura do trabalho: monografia ou formato de artigos
O PPGCCA permite que a dissertação seja estruturada como monografia tradicional ou como conjunto de dois artigos, com introdução geral, introduções específicas para cada artigo e conclusão geral. Essa decisão deve ser conversada com o orientador desde o início do projeto, pois interfere diretamente na organização da escrita e no cronograma de produção.
O formato de dois artigos exige a redação de múltiplas introduções e conclusões, o que representa maior volume de trabalho estrutural, mas resulta em produtos já próximos do formato exigido para submissão a periódicos. Quando os dois artigos compartilham a mesma metodologia, entretanto, bancas avaliadoras podem perceber redundância entre eles, o que já motivou sugestões de conversão do trabalho para o formato de monografia única em pelo menos um dos casos relatados. Essa é outra decisão que deve ser revisitada junto ao orientador sempre que a banca apontar essa questão.
Precisão terminológica e amadurecimento conceitual
Os relatos mostram que a definição precisa dos construtos utilizados costuma evoluir ao longo do mestrado. A escolha de um termo em detrimento de outro, mesmo quando ambos correspondem à mesma palavra em outro idioma, pode alterar significativamente a clareza teórica do trabalho. Esse tipo de ajuste terminológico, que ocorre a partir de leituras adicionais, conversas com o orientador ou observações da banca, faz parte do amadurecimento natural da pesquisa e não deve ser interpretado como retrabalho desnecessário.
Uso de inteligência artificial na elaboração da dissertação
O uso de ferramentas de inteligência artificial ao longo da escrita da dissertação foi tratado como prática já aceita, desde que empregada de forma transparente e criteriosa. Entre os usos relatados como produtivos estão a verificação do equilíbrio de referências e extensão de texto entre parágrafos e seções, de modo a identificar desequilíbrios temáticos no trabalho, a identificação da ideia e da referência principal de cada parágrafo, como forma de checar a coerência e a progressão lógica do argumento. O uso dessas ferramentas também foi relatado como suporte na orientação de procedimentos estatísticos, sem substituir a compreensão do pesquisador sobre o que está sendo calculado.
A declaração do uso de inteligência artificial na dissertação foi apontada como exigência que já se impõe, seja pela exigência formal de determinadas agências de fomento, seja por uma obrigação de ordem ética diante do debate crescente sobre o tema no meio acadêmico. Recomenda-se que essa declaração detalhe especificamente qual ferramenta foi utilizada e para quais finalidades, evitando menções genéricas ao uso de inteligência artificial sem explicitar seu papel exato no processo.
Relação com o orientador
A proximidade com o orientador foi apontada repetidas vezes como fator que facilita o desenvolvimento do trabalho. A recomendação prática é que o mestrando tome a iniciativa de buscar o orientador, em vez de esperar passivamente por retornos, já que essa aproximação favorece o alinhamento de expectativas e a resolução mais rápida de dúvidas metodológicas. Conversas informais, além das reuniões formais de orientação, também foram citadas como espaços valiosos de reflexão sobre o trabalho.
Participação em eventos e seminários acadêmicos
A apresentação de trabalhos em congressos e seminários, mesmo antes da qualificação ou da defesa, foi descrita como oportunidade importante de receber contribuições externas e de desenvolver segurança na comunicação da pesquisa. Esses momentos funcionam de forma semelhante a uma banca, na medida em que expõem o trabalho a olhares diferentes e permitem seu aprimoramento progressivo. Participar como ouvinte de seminários de colegas, mesmo quando o tema não é diretamente relacionado ao próprio projeto, também foi indicado como fonte de aprendizado relevante.
Visibilidade do trabalho para além do meio acadêmico
Uma sugestão recorrente foi a de "traduzir" os resultados da dissertação em um material voltado a um público não acadêmico diretamente relacionado ao tema estudado, como profissionais do setor pesquisado. Esse material, elaborado em linguagem distinta da exigida pela banca, permite devolver o resultado da pesquisa àqueles que contribuíram como respondentes e ampliar o alcance prático do trabalho.
Também foi recomendada a atualização constante de perfis profissionais e acadêmicos, como Lattes e LinkedIn, à medida que o mestrando avança em etapas como qualificação, publicações e defesa. Essa atualização tem valor prático, já que editais de fomento e critérios de seleção profissional frequentemente exigem comprovação de titulação ou produção acadêmica recente.
A dimensão emocional do processo
Por fim, os relatos reconheceram a dimensão emocional que acompanha o desenvolvimento de uma dissertação. A pressão de prazos, a ansiedade diante de etapas avaliativas e a sensação permanente de que o trabalho poderia estar mais completo foram descritas como experiências comuns a praticamente todos os pesquisadores, inclusive depois da defesa. Cada pessoa reage de forma distinta à pressão: para alguns, um prazo bem definido funciona como estímulo produtivo, enquanto para outros o mesmo prazo pode gerar bloqueio, sendo mais produtivo alternar entre períodos de maior liberdade e momentos de foco mais estruturado.
Conversar sobre a pesquisa com outras pessoas, incluindo familiares ou colegas sem relação direta com o tema, foi apontado como exercício útil, não necessariamente pela qualidade da resposta recebida, mas pelo próprio esforço de organizar e verbalizar as ideias em voz alta. Esse processo de verbalização auxilia o pesquisador a esclarecer para si mesmo aspectos do trabalho que ainda não estavam bem definidos.
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Referência: ARRABAL, A. K.; VAN DALL, B. V.; MACHADO, C.; BUZZI, C. B. T. B.; PEIXER, C. G.; MOURA, G. S. M. Trajetórias de elaboração de dissertações de mestrado: relatos, estratégias e aprendizagens. Blog Prof. Arrabal, Blumenau, 21 ago. 2026. Disponível em: https://profarrabal.blogspot.com/2026/09/trajetorias-de-elaboracao-de.html. Acesso em:
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Nota: A produção deste texto contou com o suporte de ferramentas de inteligência artificial generativa (IAG). O Transcritor Instantâneo do Google foi utilizado para a transcrição das falas da aula, que constitui a fonte das informações apresentadas no texto. O Claude foi empregado como apoio a estruturação do texto, enquanto o ChatGPT foi utilizado parcialmente na revisão ortográfica e gramatical.

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