Seres humanos são AUTÔNOMOS e máquinas são AUTÔMATAS!

Tornou-se comum usar a palavra “autonomia” para se referir ao desempenho de computadores e algoritmos de inteligência artificial. Creio que esse uso tem contribuído para gerar alguns problemas jurídicos e culturais.

Há situações em que o emprego da mesma palavra para conceitos diferentes não traz maiores consequências. São casos em que o próprio contexto resolve. Dificilmente alguém vai confundir o banco da praça com a instituição financeira. Mas há situações em que usar uma única palavra para dois conceitos distintos pode nos levar a grandes problemas.

Na produção e no uso de tecnologias digitais, tenho a impressão de que já faz tempo que misturamos ideias bem diferentes com o uso da palavra autonomia. Uma coisa é dizer que uma máquina funciona sozinha (ou quase); outra é afirmar que uma pessoa age por conta própria, guiada por convicções e aspirações que a sociedade e as leis admitem. Confundir funcionalidade (a máquina faz algo) com propósito (o que queremos para nós) é um grande equívoco. Não deveria ser difícil entender isso. Afinal, significado depende de contexto.

Claro que o ser humano, do ponto de vista biológico, “funciona”, e também é evidente que as máquinas funcionam, sejam mecânicas, elétricas ou digitais. Recentemente comprei um espremedor de laranjas que funciona muito bem. Na minha infância, aquelas máquinas de calcular simples eram muito mais rápidas e precisas do que eu para multiplicar e dividir grandes números. Até hoje, elas seguem funcionando bem, e melhor do que a maioria das pessoas, se o que esperamos delas são apenas resultados matemáticos com rapidez e precisão. Mas não espere que as calculadoras organizem uma reunião pública ou decidam, democraticamente, fazer uma greve dos cálculos para reivindicar dignidade no trabalho.

Acontece que a condição da vida humana não se explica tão somente em termos de propósitos, resultados, performance e utilidade. Aprendi com Domenico De Masi o significado e a importância do ócio e, com Ailton Krenak, a sabedoria de compreender que a vida não encontra sentido em sua potencial utilidade. É isso que a Arte pode nos ensinar.

“Mas os computadores um dia vão nos superar e nos dominar”, dizem por aí. Bem, basta olhar ao redor: em termos de desempenho técnico, as máquinas já nos superam há muito tempo e se tornam cada vez mais competentes no que fazem. Mas a competência delas esgota na funcionalidade. Não creio que algum dia terão propósitos como os nossos. A ideia de computadores conscientes pertence à fértil imaginação humana, produtora de histórias sobre robôs e seres extraterrestres obcecados por dominar o planeta. Imaginem um confronto entre eles: o que seria de nós? Eis uma ideia que poderia muito bem servir para um roteiro cinematográfico no estilo Alien vs. Predator, mas certamente não contribui para o fortalecimento de condições culturais e institucionais que garantam os compromissos firmados em nossa Constituição republicana.

Também já se disse por aí que toda tecnologia que temos hoje esteve, algum dia, apenas na imaginação. Sem dúvida, essa frase enaltece o potencial criativo humano, mas está longe de confirmar que toda tecnologia imaginada acaba se tornando realidade. Existem patentes depositadas em diversos países cujos inventos jamais se tornaram produtos incorporados à sociedade. Esse fato não desmerece a importância do sistema de patentes, mas revela o que o discurso econômico da inovação categoricamente afirma: inovação não é sinônimo de invenção. Além das condições objetivas para que algo se concretize, a presença efetiva de uma tecnologia no cotidiano também depende de investimentos, decisões políticas e jogos de poder. Carros elétricos não circulam atualmente pelas cidades apenas porque nos convencemos de que eles representam a melhor solução para um “futuro sustentável”, ou por que eles já figuravam nas HQs da metade do século XX.

Um pensador francês disse que “o inferno são os outros”, talvez porque já faz tempo que evitamos olhar diretamente para nós mesmos e refletir sobre o que estamos fazendo conosco. É verdade que há quem enxergue esse processo. O problema, porém, é que os atuais agentes opressores (que não são nem robôs nem extraterrestres, embora se comportem como tais) não reconhecem as atrocidades que promovem contra a própria humanidade. Então, o que fazer? Penso que um dos caminhos é prestar atenção ao que estamos dizendo sobre o mundo e fazer escolhas conscientes também sobre as palavras que usamos.

Assim, para reduzir a confusão em torno da autonomia, proponho resgatar uma palavra “inusual”, mas que pode nos ajudar a marcar a diferença entre funcionalidade e propósito: automatia. Usa-se muito “automação” para descrever processos, mas quase não se usa “automatia”, sua palavra-irmã, para qualificar máquinas. Não se trata propriamente de um neologismo, pois ela se encontra no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Tenho adotado automatia para referir o desempenho de computadores e algoritmos de IA, reservando autonomia para tratar da condição humana. Aliás, há ampla literatura filosófica e jurídica que descreve a autonomia como pressuposto da dignidade existencial, uma dignidade que não dispensa a interdependência, e que se revela na capacidade de escolher o que desejamos para nossas vidas, sem prejudicar os outros. Essa é uma questão que nenhuma máquina pode resolver. Assim, máquinas, computadores e robôs são autômatos; nós, seres humanos, somos autônomos. Podemos combinar assim?

Prof. Dr. Alejandro Knaesel Arrabal
http://www.linktr.ee/profarrabal

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Para referenciar: 

ARRABAL, Alejandro Knaesel. Seres humanos são AUTÔNOMOS e máquinas são AUTÔMATAS! Blog Prof. Arrabal, Blumenau, 23 set. 2026. Disponível em: https://profarrabal.blogspot.com/2026/09/seres-humanos-sao-autonomos-e-maquinas.html. Acesso em:

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Nota: revisão ortográfica e gramatical realizada com apoio de IA Generativa (ChatGPT, 2026), sem alterações no estilo ou no conteúdo escrito pelo autor.

Ilustração: versão graficamente aprimorada com IAG (Gemini, 2026), a partir da charge publicada em 2014 no portal www.praticadapesquisa.com.br

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