Entre escuta, cuidado e conhecimento: uma tarde com André Luiz Freitas Dias do Polos de Cidadania da UFMG
Na manhã de 17 de setembro de 2026, o Professor Dr. André Luiz Freitas Dias participou da XLIII Semana de Estudos Jurídicos do Curso de Direito da FURB, com a palestra “Invisibilidade e Direitos: O Impacto da ADPF 976 na Proteção das Pessoas em Situação de Rua”. À tarde, tivemos a oportunidade de recebê-lo na sala C-101 do Campus I, junto de professores e estudantes do Programa de Pós-Graduação em Direito da FURB. A conversa percorreu a história, a organização e as atividades do programa de extensão Polos de Cidadania, da Universidade Federal de Minas Gerais. O encontro proporcionou importantes reflexões sobre a construção de relações institucionais significativas para a garantia dos direitos fundamentais e da dignidade humana. O texto que segue consiste no relato desse encontro vespertino, realizado no PPGD.
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| Foto: Yasmin Machado Ribeiro (2026) |
Uma conversa que começa pela história
André começou com a leveza de quem se sente em casa. Agradeceu a acolhida e iniciou apresentando brevemente sua trajetória: é psicólogo, atua no campo da saúde coletiva e trabalha na interface com os direitos humanos. Está há mais de duas décadas na UFMG e há 17 anos divide a coordenação do Programa de Extensão Polos de Cidadania. Também integra a pós-graduação em Direito, na qual orienta pesquisas de mestrado e doutorado. Hoje exerce, ainda, funções de direção na divulgação científica da universidade e no observatório astronômico da Serra da Piedade. Ao falar deste último, contou sobre o projeto de ampliar seu papel como espaço de extensão e divulgação científica, em diálogo com a interiorização da UFMG.
O Polos tem cerca de 31 anos. André explicou que sua origem antecede um pouco 1995. Associou esse nascimento ao ambiente intelectual em que também surgiu o Direito Achado na Rua, na Universidade de Brasília, e destacou a contribuição da Professora Dra. Miracy Barbosa de Sousa Gustin para a trajetória do programa mineiro. Um aspecto que marcou a narrativa de André sobre a trajetória do Polos é que o projeto nasce com vocação extensionista e é a partir dele que inúmeras outras ações, projetos e iniciativas voltadas a pesquisa e ao ensino são realizadas.
A extensão antes da pesquisa
A extensão não decorre de projetos estritamente acadêmicos destinados à divulgação de resultados prontos. André explicou claramente que se trata de um caminho inverso, orgânico e transdisciplinar, construído a partir de vínculos comunitários estabelecidos ao longo do tempo. Alunos de graduação, mestrado e doutorado participam das atividades do Polos, e as pessoas com quem trabalham interferem na produção de conhecimento. Segundo ele, estudantes sob sua orientação e sob a orientação da Professora Maria Fernanda Salcedo, com quem divide a coordenação geral, ingressam o Polos. Pesquisas e disciplinas nascem das questões que surgem ali. No programa de pós-graduação em Direito da UFMG, esse trabalho se relaciona com um projeto coletivo sobre justiça socioespacial, direito à cidade e direito ao território. André destacou que a proximidade hoje percebida entre extensão e pós-graduação resultou de muitos anos de construção.
A dimensão dessa experiência impressiona. André falou de aproximadamente 80 pesquisadores e extensionistas vinculados diretamente ao programa, de estudantes em diferentes etapas de formação, de bolsas de extensão e graduação e da participação de áreas como Direito, Psicologia, Estatística, Engenharia, Medicina, Antropologia, Comunicação, Teatro, Arquitetura, Urbanismo e Saúde Coletiva. Pessoas entram por seleção, seguem outros percursos e muitas vezes retornam para uma nova pesquisa, um doutorado ou um projeto. André observou que hoje o Polos se concentra sobretudo em dois campos: os direitos da população em situação de rua e os conflitos urbanos e socioambientais que afetam comunidades, especialmente em contextos de mineração e de rompimento de barragens.
André ponderou que o conhecimento científico tem valor, mas não deve ocupar uma posição superior aos conhecimentos das pessoas com quem a universidade se relaciona. Ele mencionou Paulo Freire e Orlando Fals Borda, bem como a ideia de pessoas que sentem e pensam, aprendida por Fals Borda no diálogo com camponeses colombianos. Daí veio uma pergunta que permaneceu comigo: de que maneira a universidade afeta uma comunidade, de que maneira é afetada por ela e o que ambas produzem juntas? Creio que estas sejam questões que precisam constantemente ser resgatadas.
Quando a comunidade entra na universidade
No Polos, uma questão de dissertação ou tese pode ser construída com a comunidade, e não simplesmente levada até ela, afirmou André. Antes das bancas acadêmicas, as propostas passam por conversas e apresentações às pessoas que conhecem diretamente a realidade estudada. Nem todo estudante aceita com facilidade esse deslocamento. A disposição de ouvir pode alterar a pergunta inicial, o método e até o sentido que o pesquisador atribuía a seu trabalho. André relacionou essa prática a uma ética da justiça e a uma ética do cuidado, Também destacou a base matriarcal do Polos, marcada pela partilha, pelo afeto e pelo diálogo, um papel decisivo em sua história.
Um dos trabalhos mais antigos do programa é o contato com pessoas em situação de rua, que remonta a cerca de três décadas. André apresentou uma plataforma de atenção em direitos humanos que desenvolve ações com crianças, adolescentes, jovens, mães e famílias em condições de vulnerabilidade. O ponto que destacou foi a necessidade de ouvir as mulheres e proteger os vínculos familiares, em lugar de reduzir vidas complexas a decisões tomadas por terceiros.
Outra frente apresentada foi a atuação com comunidades atingidas por conflitos socioambientais. André mencionou experiências na Serra da Canastra, em municípios ligados ao projeto Minas-Rio, em Nova Lima, em Brumadinho e na bacia do Paraopeba. Contou que a presença anterior do Polos em territórios próximos permitiu uma resposta rápida após o rompimento da barragem em Brumadinho. Descreveu ainda a possibilidade de trabalhar com acervos fotográficos sobre conflitos ambientais por meio de exposições, atividades em escolas e diálogo com movimentos sociais, em parceria com a área de cultura da universidade. Para ele, a cultura e a expressão artística devem participar da produção de conhecimento e da relação com as comunidades.
Entre as formas de atuação que André apresentou, o teatro ocupa um lugar especial. A trupe A Torto e a Direito, ligada ao Polos desde seus primeiros anos, trabalha com teatro popular de rua, bonecos e cordel. André destacou o quanto essa presença alterou a vida da Faculdade de Direito. Uma cena narrada por ele resume bem a ideia: durante uma reunião, integrantes da trupe podem entrar na sala para mostrar um esboço de peça construído com a comunidade. A linguagem artística abre perguntas, provoca reações e torna possível dizer de outra maneira aquilo que os relatórios não alcançam. André também mencionou a Escola de Formação em Direitos Humanos (EFDH) como parte da variedade de atividades do Polos.
Dos dados às políticas públicas
André também apresentou o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua. Ele contou que sua criação, no começo da pandemia, respondeu a uma demanda antiga de movimentos de pessoas em situação de rua, da Pastoral do Povo da Rua e de entidades parceiras. O Observatório acompanha dados de todo o país e trabalha com informações dos municípios brasileiros. André descreveu o processamento mensal de milhões de células de dados, a análise do Cadastro Único e a elaboração de informes e mapas que permitem identificar perfis e concentrações territoriais. O trabalho foi registrado tanto na extensão quanto como projeto estruturante da pós-graduação. Assim, uma demanda surgida no diálogo com movimentos sociais orientou uma estrutura de pesquisa, formação e produção pública de dados.
André apresentou exemplos de como os dados do Observatório chegaram a políticas nacionais. Durante a pandemia, a Defensoria Pública da União procurou a equipe porque o planejamento inicial de vacinação contemplava um número que ela considerava insuficiente de pessoas em situação de rua. O Polos preparou rapidamente um relatório para subsidiar a discussão com o Ministério da Saúde e colaborou com orientações técnicas sobre a vacinação. André falou também do fornecimento de dados para as ações de saúde no Rio Grande do Sul em 2024, num contexto de urgência provocado pelas enchentes. Citou ainda a interlocução com o Conselho Nacional de Justiça e com o Conselho Nacional do Ministério Público, inclusive a elaboração de informes estaduais e o apoio à atualização de orientações para a atuação ministerial. Esses exemplos ajudaram a compreender por que ele chamou a situação das pessoas nas ruas de um indicador da saúde de nossa democracia e da efetividade da Constituição, em conexão com o debate sobre a ADPF 976.
A produção dos informes também permitiu uma discussão importante sobre divulgação científica. Na função que exerce na UFMG, André acompanha iniciativas para que a pesquisa converse com públicos fora dos círculos especializados. Contou que o Polos aproveita formações transversais de graduação, inclusive nas áreas de direitos humanos, saberes tradicionais e divulgação científica, para criar disciplinas e materiais ligados aos problemas encontrados em seus projetos. Essas disciplinas acolhem estudantes de diferentes cursos. Divulgação científica, observou, envolve compartilhar conhecimento com a sociedade e abrir espaço para perguntas. Quando a universidade registra o alcance social de um projeto, precisa mostrar a sequência de relações, pesquisas, decisões e resultados que tornou esse alcance possível.
Houve espaço, também, para perguntas sobre o que uma experiência construída ao longo de 31 anos pode ensinar a outras instituições. Colegas do PPGD falaram dos desafios de aproximar a extensão das atividades de graduação e pós-graduação e de dar consistência a projetos já existentes no âmbito da FURB. André respondeu que programas e projetos podem colaborar sem perder suas diferenças. Relembrou que o trabalho do Polos envolve professores de áreas distintas, cada qual ligado a seu curso e, por vezes, a uma pós-graduação diferente.
André descreveu como demandas concretas podem gerar novas questões jurídicas e acadêmicas. Segundo ele, a atuação junto a pessoas e comunidades atingidas por situações de grande impacto social exige, antes de tudo, escuta e participação na definição das formas de acolhimento e das necessidades a serem consideradas. A experiência extensionista, nesse sentido, pode suscitar perguntas que posteriormente se transformam em projetos de pesquisa, inclusive a partir da construção coletiva de categorias jurídicas relacionadas aos diferentes tipos de dano, às perdas e aos projetos de vida.
Ao fim, André referiu-se com evidente afeto aos integrantes do Polos, à acolhida que recebeu na FURB e à alegria de aprender com pessoas de formações e experiências diversas. A riqueza da tarde esteve justamente nessa dimensão. Entre muitas outras questões de grande importância, sua fala representou um convite a reconhecer o tempo necessário à construção da integração comunitária, o cuidado indispensável com quem participa e realiza pesquisas orientadas por ações extensionistas, a responsabilidade que todos nós, integrantes do ambiente acadêmico, temos perante a sociedade pelos efeitos do que produzimos e a importância do diálogo na construção de saberes.
Muito grato André pela tarde de grande aprendizado.
Prof. Dr. Alejandro Knaesel Arrabal
Nota: A produção deste texto contou com o suporte de ferramentas de inteligência artificial generativa (IAG). O Transcritor Instantâneo do Google foi utilizado para a transcrição da comunicação, que constitui a principal fonte escrita das informações apresentadas no texto. O ChatGPT foi empregado como apoio para a estruturação do texto, revisão ortográfica e gramatical.

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