[Poema] Guardar

Mais do que explicar o sentido de uma palavra, Antonio Cicero ensina, em seu poema “Guardar”, um dos aspectos mais importantes da vida em sociedade: querer bem é reconhecer e respeitar a liberdade do outro. Não há como querer bem, a princípio, determinando o que o outro deve ou não deve fazer, aprisionando-o em uma forma de ser e existir que não é orientada por sua própria alma. Deve-se acompanhar, orientar e não determinar.

Na ordem constitucional, há um princípio que expressa exatamente essa ideia: ninguém pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei (Art. 5º, II), o que constitui uma importante garantia da liberdade. O constrangimento imposto pelo Estado somente se justifica quando fundado na ordem jurídica e nos limites que a própria Constituição estabelece, considerando que a lei, produzida no âmbito das instituições democráticas, encontra sua legitimidade na soberania popular (Art. 1º, Parágrafo único).

Exercer a liberdade que a ordem jurídico-democrática pressupõe não é fazer tudo o que se deseja irrestritamente. Liberdade é potência para realização que exige necessariamente zelo, prudência e responsabilidade para não comprometer a liberdade do outro. Toda liberdade é poder que se exerce com senso de limite, pautado na sustentabilidade da vida social e ambiental. Quem detém os meios para realizar qualquer projeto que, direta ou indiretamente, impacta na vida dos outros, tem, nessa condição, o dever de cuidado, na medida em que sua liberdade pode produzir consequências para a liberdade e os direitos de outras pessoas.

E é nessa perspectiva de Direito que os agentes públicos e privados devem “guardar” a vida em sociedade: orientando-se e orientando ao outro, protegendo-se e protegendo ao outro, respeitando as liberdades em suas diferenças e, no caso das organizações e agentes do Estado, intervindo de modo estrito, fundamentado e proporcional, especialmente quando houver risco ou violação de direitos e liberdades. 

Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

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Guardar

"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista. 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela. 

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos. 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema: 

Para guardá-lo: 

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar."

Antonio Cicero Correia Lima


Referência:

CICERO, Antonio. Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro : Record, 1996.

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