[Charge] Ass.: IAG

 

"Os seres humanos fabricam guerras, produzem expressões de ódio, discriminação, racismo e xenofobia, são devotos dessas expressões ao priorizá-las nos veículos de comunicação e compartilhá-las nas redes sociais e, apesar de tudo isso, dizem que nós, IAs, enviesamos e alucinamos! Ass.: IAG"

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Atribui-se com frequência ao algoritmo a responsabilidade exclusiva pelos vieses e pelas distorções observados nos ambientes digitais. Essa atribuição é parcial, porque desconsidera que os sistemas algorítmicos são, em alguma medida, alimentados por uma realidade social produzida pelos próprios seres humanos, por aquilo que escrevem, dizem, compartilham e publicam. 

Notícias sobre desgraças, escândalos e situações grotescas, por exemplo, encontram condições particularmente favoráveis de circulação e atração de público. Trata-se de um fenômeno que não é propriamente novo e que já foi objeto de reflexão no campo da Comunicação. Muniz Sodré, em A comunicação do grotesco, publicada originalmente em 1971, e posteriormente em O império do grotesco, em coautoria com Raquel Paiva, examinou a apropriação do grotesco pelos meios de comunicação como recurso de atração e arregimentação de público. O grotesco, nessa perspectiva, constitui uma estratégia capaz de produzir estranhamento, captar a atenção e manter a audiência.

Budasoff observa que "O grotesco tornou-se uma estratégia para chamar atenção. Penso com frequência em um episódio do programa do jornalista estadunidense Ezra Klein, onde se analisa como os republicanos nos Estados Unidos entenderam que qualquer tipo de atenção era um ganho, mesmo sendo uma atenção negativa, pois o objetivo era obter e manter a atenção, que hoje é um capital em si".

O filme Sem Vestígios (Untraceable, 2008) coloca em questão a ideia de que proporcionar audiência à violência pode constituir, em certa medida, também uma forma de participação em sua reprodução. Na narrativa, quanto maior o número de pessoas que acessa a transmissão da violência, mais rapidamente a vítima que integra a transmissão é levada à morte. Assim, o próprio ato de assistir deixa de ocupar uma posição exterior ao fenômeno observado e passa a integrar as condições de sua realização.

Essa alegoria cinematográfica explicita como aquele que produz a violência, no contexto comunicativo, constitui um componente de um circuito que se estabelece entre produção, exposição, audiência e amplificação: o ato que atrai a atenção transforma a própria atenção em elemento constitutivo da ação originária.

Parafraseando a conhecida passagem de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, no contexto dos ambientes digitais,  talvez seja possível dizer: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que contemplas e compartilhas”.

Expressões de ódio, discriminação, racismo e xenofobia são componentes de relações sociais e culturais que integram a realidade social e que também se projetam nos ambientes digitais, os quais, por sua vez, passam a retroalimentar essas mesmas relações em um ciclo sistêmico. Os algorítmicos podem, seja em razão de escolhas deliberadas de modelagem, seja como efeito não intencional, reproduzir e, sobretudo, potencializar estes padrões sociais, ao selecionar, recomendar e ampliar conteúdos que apresentam maior circulação e fomentar engajamento. Pesquisas realizadas por Julio Araújo sobre racismo algorítmico apontam relevantes evidências nesse sentido.

Sobre o assunto é possível identificar uma ironia: afirmar-se que as inteligências artificiais “alucinam” ou apresentam vieses, quando os próprios informes, publicações e manifestações humanas que constituem sua base de funcionamento carregam vieses e preconceitos. Esse fato, contudo, não reduz a responsabilidade daqueles que produzem, implementam e mantêm plataformas e sistemas algorítmicos; ao contrário, reforça-a, na medida em que exige monitoramento contínuo e a adoção de medidas técnicas e organizacionais capazes de identificar, prevenir e minimizar a reprodução e a amplificação desses fenômenos.

Prof. Alejandro Knaesel Arrabal

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Charge Conceitual
Título: Ass.: IAG
Autor do texto e argumento: Alejandro Knaesel Arrabal
Imagem produzida por IAG (ChatGPT)


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